Que bom te ver de novo!

Nesse primeiro artigo eu falei sobre a relação entre os métodos contraceptivos e as alterações de humor nas mulheres. Como você pode ver, a resposta é SIM! A relação de causa e efeito existe.

Agora que falamos do “o quê”, chegou o momento principal, o “por quê”. Ponto que amamos aqui na Serena.

Quer entender a razão disso? Vem comigo!

A pergunta que não quer calar, qual seria a fisiopatologia que está por trás das alterações de humor que observamos e muitas mulheres na prática clínica? Por que algumas pacientes ficam bem enquanto outras tem desde irritabilidade até depressão profunda e risco de suicídio? 

A verdade é que não temos estudos suficientes que comprovem essas hipóteses, porém, acredita-se em origem multifatorial por vários prováveis mecanismos.  Acredito em predisposição genética associada a fatores socio-ambientais somados aos efeitos que a pílula tem no organismo como inflamação, alterações no eixo hormonal gonadal, tireoidiano e supra-renais e depleção de micronutrientes com alteração da microbiota influenciando na produção de neurotransmissores e no eixo intestino-cérebro.

A serotonina é o principal químico cerebral responsável por fazer com uma pessoa se sinta feliz, relaxada e confiante. Ela também desempenha um papel importante no sono, no desejo sexual e na saúde digestiva. A teoria mais prevalente da depressão é que ela é causada pela falta de serotonina. Para a síntese adequada de serotonina é necessário triptofano, mas certos co-fatores – vitamina B6, ácido fólico, vitamina C, ferro, magnésio, cálcio e zinco – precisam estar presentes para que a reação completa ocorra.

Entre os micronutrientes que a pílula causa uma diminuição da absorção estão o magnésio, vitamina B6 e antioxidantes, como vitamina E, vitamina C.

Como a pílula depleta níveis desses co-fatores principalmente da vitamina B6, ela diminui a presença triptofano e consequentemente de serotonina no cérebro. Além disso, a vitamina B6 também é um cofator importante para o GABA, um neurotransmissor com efeitos inibitórios do sistema nervoso central, que quando em falta pode deixar as pessoas com muita ansiedade

Se você usa pílula anticoncepcional, suplementar esses nutrientes é uma necessidade absoluta.

Os métodos contraceptivos hormonais também podem alterar o bom funcionamento da tireóide e as glândulas supra-renais . As mulheres com hipotireoidismo são mais propensas a ter depressão e ansiedade e as glândulas supra-renais ajudam a regular a inflamação e quando tem a função comprometida também pode levar a alterações de humor.  

Os hormônios sintéticos presentes nas pílulas são inflamatórios e sabemos que a inflamação interfere e pode afetar significativamente os níveis saudáveis ​​de neurotransmissores. 

 

Cuidados na Prescrição da Pílula

Temos sempre que ter em mente que os métodos contraceptivos hormonais foram projetados para mulheres saudáveis. Até os estudos científicos que avaliam os efeitos colaterais costumam excluir mulheres que tenham um diagnóstico que possa interferir nos resultados.

Porém, o que percebemos na prática clínica é a prescrição de métodos hormonais justamente para melhorar sintomas de pacientes que se apresentam com sintomas ou doenças de uma possível patologia de base, como acne, menstruações irregulares ou dolorosas e síndrome dos ovários policísticos, não investigando e tratando a causa raiz, apenas mascarando os sintomas presentes. 

Portanto, a prescrição de anticoncepcionais para mulheres com doenças e sintomas pré-existentes, como alterações de humor, doença autoimune ou distúrbios hormonais pode ser o início de um desequilíbrio com consequências desastrosas para a saúde das mulheres. Reforço, dessa forma, a importância de você ter um profissional médico que olhe para a sua saúde e estilo de vida por inteiro!

 

O que fazer e como ajudar as mulheres?

Caso a melhor opção para a mulher seja o uso de algum método contraceptivo hormonal devemos então apoiar e oferecer suporte para minimizar os possíveis efeitos colaterais.

Orientações quanto ao estilo de vida saudável incluindo dieta adequada, exercícios físicos, um bom sono e controle do estresse são a base para melhorar todos os efeitos colaterais e a saúde das mulheres em uso de métodos contraceptivos hormonais.

Uma dieta anti-inflamatória e rica em alimentos integrais, fibras e vegetais com boas fontes de proteínas e gorduras é fundamental. O uso de pré e probióticos pode ser uma boa estratégia nos casos de disbiose e hiperpermeabilidade intestinal, visto a importância do intestino na imunidade, combate a inflamação e produção de neurotransmissores. Se possível acompanhar com nutricionista sempre.

Suplementar nutrientes deletados pelo uso da pílula como vitaminas do complexo B, antioxidantes e magnésio é fundamental e vai diminuir os riscos de alterações emocionais. O ômega 3 é um suplemento chave nesta questão, seja pelos seus efeitos anti-inflamatórios ou neuroprotetores do EPA e principalmente DHA na estrutura cerebral. A curcumina é outro potente anti-inflamatório e pode ser uma grande aliada.

Realizar exercícios físicos diários além dos benefícios para a saúde pode distrair a mente e liberar endorfinas causando sensação de bem-estar e melhora do humor.

Tomar medidas para dormir horas suficientes e melhorar a qualidade do sono é fundamental. Se por algum motivo o sono está ruim ou insuficiente, o corpo e o cérebro não se recuperam e é impossível manter o bom humor, ter energia e disposição.

 

Considerações Finais

Sabemos que para uma grande parte das mulheres, os benefícios de uma contracepção confiável superam os efeitos colaterais. Nem todas as mulheres se sentem mal e algumas até relatam que o uso de métodos hormonais impulsiona o humor.

Acredito que não devemos rejeitar o uso desses métodos para todas as mulheres, mas também não devemos aceitar efeitos colaterais negativos e ignorar queixas relacionadas.

O que não pode acontecer é prescrição desse tipo de hormônio sem conscientizar e informar a respeito dos efeitos colaterais, monitorar as reações e fornecer apoio, suporte e alternativas e para os possíveis problemas que surgirem.

Todas as mulheres que iniciarem um método contraceptivo hormonal, caso observem alguma alteração ou declínio no humor devem conversar imediatamente com o seu médico. Caso o médico ignore as suas queixas e lhe diga que está tudo na sua cabeça você deve procurar uma segunda opinião.

Sou contra o início de qualquer medicação para controle de humor ou depressão antes de que se reavalie o método contraceptivo. Muitas vezes uma nova prescrição de um medicamento pode gerar ainda mais efeitos colaterais, sem resolver a causa raiz piorando os sintomas.

Compreendendo que uma gestação não planejada ou indesejada pode também levar à depressão e a sérios problemas na vida de uma mulher, oferecer e orientar outros métodos contraceptivos antes de parar a pílula é fundamental. Essas decisões devem ser individualizadas e a decisão compartilhada com a paciente após esclarecimento de forma clara de todas as opções.