Desde o advento da pílula anticoncepcional, em 1960, são relatados efeitos colaterais emocionais pelas usuárias. Ansiedade, depressão, alterações de humor e sentimentos de que algo não está certo estão entre os muitos sintomas que as mulheres expressam após o início da pílula. 

Como médico ginecologista, atendendo diariamente muitas mulheres em uso de pílula anticoncepcional, posso afirmar com propriedade que queixas de alterações de humor e depressão são muito frequentes entre as usuárias. Não precisa ser médico, basta dar um “google” ou mesmo uma procura no facebook e você irá encontrar muitos relatos de como as pílulas alteram completamente humor deixando as mulheres ansiosas, depressivas ou até mesmo taxadas de “loucas”, levando muitas vezes a uma falta de reconhecimento de si própria. 

Grave, não? 

Para piorar, muitas dessas pacientes já consultaram médicos clínicos, ginecologistas, psiquiatras e neurologistas, tendo suas queixas pouco valorizadas ou garantindo que que essas queixas não tem vínculo com o uso de pílulas anticoncepcionais. Muitas vezes, é afirmado a essas mulheres que são coisas da sua imaginação ou pior ainda, prescritos antidepressivos, estabilizadores de humor ou sedativos para o tratamento dos sintomas, contribuindo para um cenário completo de caos metabólico-endocrinológico-neuronal, levando essas pacientes a um desequilíbrio do corpo, cérebro e mente.  

Revisaremos aqui, nesse artigo, o elo existente entre pílula anticoncepcional e mudanças de humor, as principais evidências científicas, sintomas, possíveis causas e como ajudar mulheres com alterações emocionais associadas ao uso da pílula.

Alterações emocionais associadas ao uso de pílulas anticoncepcionais:

Os principais sintomas são:

  • Depressão
  • Ansiedade
  • Mudanças de humor
  • Irritabilidade
  • Choro fácil
  • Aumento do risco de suicídio

As principais queixas se referem à falta de motivação e alegria, perdendo o interesse em hobbies, sentindo uma desconexão com os seus familiares, amigos e com elas mesmas.  

Algumas ainda referem a perda do interesse e foco em atividades do cotidiano e trabalho. Alguns casos mais graves se referem a pensamentos ou tentativas de suicídio. 

Sabendo que os hormônios femininos naturais – que variam durante um ciclo hormonal fisiológico – possuem um impacto no organismo como um todo e alteram o humor durante as diferentes fases, faz sentido pensar que se você estiver ingerindo hormônios sintéticos, eles também podem ter um grande impacto em seu humor, motivação e mente.

Quais as evidências?

Leia a bula de qualquer anticoncepcional vendido sem receita nas farmácias, na parte de efeitos colaterais frequentes e verá que os anticoncepcionais podem causar alterações de humor e depressão e recomendações que pacientes com antecedentes de depressão devem ser observadas com maior atenção. Ainda assim, muitas mulheres não são informadas a respeito das alterações emocionais que podem ser causadas por esses tipos de hormônios e colegas médicos insistem em dizer que não há essa relação e, para piorar, pouco valorizam essas queixas.

Existem várias evidências na literatura médica que relacionam o uso de pílula anticoncepcional com depressão.

Sim, você não leu errado!

O maior estudo sobre o assunto foi publicado em 2016, em uma revista conceituadíssima chamada JAMA, em que um grupo dinamarquês acompanhou mais de um milhão de mulheres do país com idades entre 15 e 34 anos, ao longo de 13 anos. 

Os autores descobriram que, ao compararem com as não usuárias de métodos hormonais, as que faziam o uso de pílulas anticoncepcionais tiveram 23% de aumento de risco de iniciar antidepressivos. 

Isto é preocupante, mas talvez a descoberta mais surpreendente tenha sido que as adolescentes tinham 80% mais chances de desenvolver depressão quando usavam pílula combinada. A pílula só de progestogênio aumentou o risco das adolescentes em mais de 2 vezes (120%).

Em suma, os resultados permitem dizer que temos mais casos de depressão e de usuárias de antidepressivos no grupo de usuárias de contraceptivos hormonais do que no de usuárias de métodos não hormonais. 

Os mesmos autores publicaram no JAMA, em 2018, um estudo que mostrou que mulheres jovens que usam contraceptivos hormonais, incluindo a pílula anticoncepcional, o anel, o DIU e o adesivo têm três vezes o risco de suicídio em comparação às mulheres que nunca usaram o método contraceptivo hormonal.

Os estudos epidemiológicos podem ter muitas variáveis ​​que dificultam a demonstração de causa e efeito, porém com os achados desses grandes estudos, que usaram um banco de dados de boa qualidade e um seguimento longo das pacientes,  toda vez que uma paciente se apresenta com sintomas de alteração de humor ou depressão associada ao uso de anticoncepcionais hormonais, suas queixas devem ser valorizadas e a mudança de método contraceptivo deve ser uma estratégia discutida com a mesma.

A própria Federação brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia – FEBRASGO cita em seu manual de anticoncepção que o uso de pílulas anticoncepcionais pode levar a quadros de irritabilidade e depressão e orienta os profissionais a troca de método caso este fato ocorra. 

Todas as mulheres devem ter direito a planejamento familiar e à prevenção de uma gestação indesejada, porém, diante desses dados, é de fundamental importância que seja feita uma triagem completa e aconselhamento personalizado por parte dos médicos antes de recomendar contraceptivos hormonais às pacientes, porque nem todas respondem da mesma maneira aos hormônios.

E esse é o ponto que sempre devemos chegar, cada organismo responde de uma forma!

Isto é, nem todas as mulheres se sentem mal e algumas até relatam que o uso de métodos hormonais impulsiona o humor. 

Interessante, não é mesmo?

Portanto, é importante sempre olharmos o humano por trás da paciente: como foi o antes e o depois do método? Como está a sua alimentação? A sua vida profissional? O seu sono? Os seus relacionamentos? Como está o seu controle do estresse?

Tudo isso tem o poder de impactar a forma como o seu organismo reage.

Por isso, busque um profissional que, antes de qualquer decisão, olhe para quem você é de verdade!